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Reflexões e Pensamentos

 

 

Pensamento em boa forma
Cumpre-nos não só averiguar porque se gasta a vida, dia após dia,
e o pouco que resta à proporção vai diminuindo.
Pensemos também no seguinte: supondo que a um homem toque
viver longa vida, uma questão permanece escura:
a de saber se a sua inteligência será capaz, tempo adiante, sem
defecção, de compreender os problemas e a teoria que
apontam ao conhecimento das coisas divinas e humanas. Se ele
pega a cair em estado de infantilidade, a respiração, a
alimentação, a imaginação, os gestos impulsivos e as outras
funções  do mesmo género não lhe faltarão necessariamente;
mas dispor de si, obtemperar exactamente a todas as exigências
morais, analisar as aparências, ver se não será já tempo de
entrouxar e ir para melhor estão à altura de responder a
necessidades  desta ordem - para tudo isso se necessita de um
raciocínio em boa forma; e o raciocínio, há que tempos perdeu a
chama e a agudeza. Cumpre-nos pois andar ligeiros, não
só porque a morte se avizinha a cada momento mas ainda porque
antes de morrer perdemos a capacidade de conceber as
coisas e de lhes prestar atenção.
 

 
   

Sabedoria de vida é usufruir o presente
Não permitir a manifestação de grande júbilo ou grande lamento
 em relação a qualquer acontecimento, uma vez que a
mutabilidade de todas as coisas pode transformá-lo
completamente  de um instante para o outro; em vez disso,
usufruir sempre o presente da maneira mais serena possível:
isso é sabedoria de vida.
Em geral, porém, fazemos o contrário: planos e preocupações
com o futuro ou também a saudade do passado ocupam-nos de
modo tão contínuo e duradouro, que o presente quase sempre
perde a sua importância e é negligenciado; no entanto, somento
o presente é seguro, enquanto o futuro e mesmo o passado quase
sempre são diferentes daquilo que pensamos.
Sendo assim, iludimo-nos uma vida inteira.
Ora, para o eudemonismo, tudo isso é bastante positivo, mas
uma filosofia mais séria faz com que justamente a busca do
passado seja sempre inútil, e a preocupação com o futuro o
seja com frequência, de modo que somente o presente
constitui o cenário da nossa felicidade, mesmo se a qualquer
momento se vier a transformar-se em passado e, então,
tornar-se tão indiferente como se nunca tivesse  existido.
Onde fica, portanto, o espaço para a nossa felicidade?

 

   

Grandes planos de vida
Uma das maiores e mais frequentes asneiras consiste em fazer
grandes planos para a vida
, qualquer que seja a sua natureza.
Para começar, esses planos pressupõem uma vida humana
inteira e completa, que, no entanto, somente pouquíssimos
conseguem alcançar. Além disso, mesmo que estes consigam
viver muito, esse período de vida ainda é demasiado curto
para tais planos, uma vez que a sua realização exige sempre
muito mais tempo do que se imaginava; esses projectos,
 ademais, como todas as coisas humanas, estão de tal modo
sujeitos a fracassos e obstáculos, que raramente chegam
a bom termo. E, mesmo se no final tudo é alcançado,
não se leva em conta o facto de que no decorrer dos
anos o próprio ser humano se modifica e não conserva as
 mesmas capacidades nem para agir, nem para usufruir:
aquilo que se propôs fazer durante a vida toda, na velhice
parece-lhe  insuportável - já não tem condições de ocupar a
posição conquistada  com tanta dificuldade, e portanto as coisas
chegaram-lhe tarde demais;  ou o inverso, quando ele quis fazer
algo de especial e realizá-lo, é ele que  chega tarde demais com
respeito às coisas.
O gosto da época mudou, a nova geração não se interessa
 pelas suas conquistas, outros se  anteciparam, etc.

O motivo deste erro frequente reside na ilusão natural, em virtude
da qual a vida, vista desde o seu início, parece sem fim, ou então
extremamente breve, quando considerada retrospectivamente a
partir do final do seu decurso (efeito do binóculo de teatro).
Essa ilusão tem, sem dúvida, o seu lado positivo: sem a sua
existência, dificilmente se conseguiria realizar  algo de grande.
 














   

Filosofias de vida
A cada etapa da vida do homem corresponde uma certa Filosofia.
A criança apresenta-se como um realista, já que está tão convicta
da existência da peras e das maçãs como da sua. O adolescente,
perturbado por paixões interiores, tem que dar maior atenção
a si mesmo, tem que se experimentar antes de experimentar as
coisas, e transforma-se protanto num idealista. O homem adulto,
pelo contrário, tem todos os motivos para ser um céptico, já que
é sempre útil pôr em dúvida os meios que se escolhem para atingir
os objectivos. Dito de outro modo, o adulto tem toda a vantagem
em manter a flexibilidade do entendimento, antes da acção e no
decurso da acção, para não ter que se arrepender posteriormente
dos erros de escolha. Quanto ao ancião, converter-se-á
necessariamente ao misticismo, porque olha à sua volta e as mais
das coisas lhe parecem depender apenas do acaso: o irracional
triunfa, o racional fracassa, a felicidade e a infelicidade andam a
par sem se perceber porquê. É assim e assim foi sempre, dirá ele,
e esta última etapa da vida encontra a acalmia na contemplação
do que existe, do que existiu e do que virá a existir.
 

  

   

A tragédia e comédia da vida
A vida é um mar repleto de rochedos e turbilhões, que o homem
 evita com a máxima precaução e cautela, embora saiba que,
quando consegue insinuar-se por eles como todo o esforço e
arte, justamente por isso acaba por se aproximar e até mesmo se
dirigir para o seu naufrágio maior, total, inevitável e irremediável,
a morte: esta é o objectivo final da penosa viagem e, para ele, o
pior de todos os rochedos dos quais se desviou.
A vida de todo o ser humano flui inteiramene entre o querer e o
conseguir. O desejo, conforme a sua natureza, é dor: alcançá-lo
significa gerar rapidamente a saciedade. O objectivo era apenas
aparente; a posse tira o encanto; o desejo e a necessidade
reapresentam-se com um novo aspecto. Quando isso não ocorre,
seguem-se a solidão, o vazio e o tédio, contra os quais a luta
atormenta tanto quanto contra a miséria.

Quando se observa a vida de cada indivíduo de modo geral,
destacando apenas os seus traços mais significativos, percebe-se
que ela não passa de uma tragédia; porém, se examinada nos
seus detalhes, tem o carácter da comédia.
 

   

A morte não é nada para nós
Habitua-te a pensar que a morte não é nada para nós, pois que
 o bem e o mal só existem na sensação. Donde se segue que um
conhecimento exacto do facto de a morte não ser nada para nós
permite-nos usufruir esta vida mortal, evitando que lhe
atribuamos uma ideia de duração eterna e poupando-nos o
pesar da imortalidade. Pois nada há de temível na vida para
quem compreendeu nada haver de temível no facto de não viver.
É pois, tolo quem afirma temer a morte, não porque sua vinda
seja temível, mas porque é temível esperá-la. Tolice afligir-se
com a espera da morte, pois trata-se de algo que, uma vez vindo,
não causa mal. Assim, o mais espantoso de todos os males, a
morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não
existe, e quando chega, não existimos mais.
Não há morte, então, nem para os vivos nem para os mortos,
porquanto para uns não existe, e os outros não existem mais.
Mas o vulgo, ou a teme como o pior dos males, ou a deseja como
termo para os males da vida.
 O sábio não teme a morte, a vida não lhe é nenhum fardo,
nem ele crê que seja um mal não mais existir. Assim como não é a
abundância dos manjares, mas a sua qualidade, que nos delicia,
assim também não é a longa duração da vida, mas seu encanto,
que nos apraz. Quanto aos que aconselham os jovens a viverem
bem, e os velhos a bem morrerem, são uns ingénuos, não apenas
porque a vida tem encanto mesmo para os velhos, como porque
o cuidado de viver bem e o de bem morrer constituem um único
e mesmo cuidado.


 

   

Vivemos de palavras
Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe. Vivemos
de palavras. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos,
subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas.
São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos
conduzem. Mas há momentos em que cada um redobra de
proporções, há momentos em que a vida se me afigura
iluminada por outra claridade. Há momentos em que cada um
grita: - Eu não vivi! eu não vivi! eu não vivi! - Há momentos em
que deparamos com outra figura maior, que nos mete medo.
A vida é só isto?
 

   

O Desperdício
O desperdício. Ele é a faixa mais larga de todo o acontecer
no universo. E na vida. Quanta energia se esgota até ao seu
nada, para ter razão esse tal segundo princípio da
termodinâmica. Que mundo incrível se perdeu com as
pessoas que se não cumpriram, que fracção enorme do
cérebro ficou sem aplicação. E numa simples vida, que gasto
enorme no comer e no dormir. Nós podíamos ser como as
plantas de raízes aéreas e que só comem ar. Ou ser como o
 sol, que não dorme. Ou Deus que também não, até há pouco.
Mas nessa desproporção alucinante entre o que se desperdiça
e o que se aproveita, o homem cria o espaço para ser maior
que o universo. Porque foi preciso o homem para o
universo nascer. Tudo tão pouco. E tudo tão tanto,
 não é verdade?

 

   

A maravilha da vida
Desvia a tua atenção para a maravilha da vida e a vida se te não
esgotará. Economiza os teus «porquês» e «para quê», porque
como na embriaguez só já paras na morte. Mas se insistes em
chegar a Deus, submete-o ao teu questionar e verás como ele fica
desnorteado. Porque o teu questionar vai para lá dele e
desvanece-se no vazio. Aceita a vida, que ela é bastante para
qualquer questionar. E poderás então adormecer porque há aí
verdade que chegue. Dorme.

   

Viver o dia a dia
Sou forçado a considerar que o pior mal dos nossos dias,
aquele que não permite que nada chegue a amadurecer, reside
no facto de os homens deixarem que cada momento se consuma
completamente no momento seguinte, que o dia se esgote em si
mesmo, ou seja, em viverem exclusivamente o dia-a-dia sem
qualquer perspectiva de futuro. Até já temos jornais destinados
a diferentes partes do dia!
E não custa acreditar que haja alguém com esperteza suficiente
para inventar mais alguns pelo meio. Mas deste modo tudo o
que se faz, tudo o que se empreende, se imagina ou se projecta
vai sendo arrastado para o domínio público; ninguém pode viver
as suas alegrias ou as suas tristezas sem que isso se torne
passatempo dos outros.

   

A nossa vida é estilhaçada pelo pormenor
Vivemos mesquinhamente, quais formigas, ainda que a fábula
nos relate que há muito tempo atrás fomos transformados
em homens; como os pigmeus lutamos com gruas; e é erro
sobre erro, remendo sobre remendo, e a nossa melhor virtude
decorre de uma miséria supérflua e evitável. A nossa vida é
estilhaçada pelo pormenor.
Um homem honesto dificilmente precisa de contar para além
dos seus dez dedos das mãos, acrescentando, em caso extremo,
os seus dez dedos dos pés, e o resto que se amontoe.
Simplicidade, simplicidade, simplicidade! Digo: ocupai-vos de
dois ou três afazeres, e não de cem ou mil; contai meia dúzia
em vez de um milhão e tomai nota das receitas e despesas na
ponta do polegar. A meio do agitado mar da vida civilizada,
tantas são as nuvens, as tempestades, as areias movediças,
tantos são os mil e um imprevistos a ser levados em conta,
que para não se afundar, para não ir a pique antes de chegar
ao porto, um homem tem de ser um grande calculista para
lograr êxito.
Simplificar, simplificar, simplificar. Em vez de três refeições
por dia, se preciso for, comer apenas uma; em vez de cem
pratos, cinco; e reduzir proporcionalmente as outras coisas.
A nossa vida é como uma Confederação Germânica,
composta de insignificantes Estados e com as fronteiras sempre
 a flutuar, de modo que nem uma alemão sabe, em dado
momento,  dizer quais são.
 

 

   

A arte e a vida
A arte baseia-se na vida, porém não como matéria mas como
forma. Sendo a arte um produto directo do pensamento, é do
pensamento que se serve como matéria; a forma vai buscá-la à
vida. A obra de arte é um pensamento tornado vida: um desejo
realizado de si-mesmo. Como realizado tem que usar a forma da
vida, que é essencialmente a realização; como realizado em
si-mesmo tem que tirar de si a matéria em que realiza.

   

Unicidade e sacralidade da vida
Experimentai a felicidade da dedicação e entrega, a felicidade
da modéstia e simplicidade e a felicidade da cooperação e
solicitude! Nenhum outro caminho vos conduz tão rápida e
tão seguramente no sentido do conhecimento da unicidade e
sacralidade da vida! Nenhum outro caminho tão-pouco vos
conduz com tanta certeza ao objectivo da arte de viver, à alegre
superação do egoísmo - jamais através da renúncia da
personalidade, mas mediante o seu mais elevado
desenvolvimento.
 

   

Vida ilusória
Ao mesmo tempo que a realidade é uma fábula, simulações e
enganos são considerados como as verdades mais sólidas.
Se os homens se detivessem a observar apenas as realidades,
e não se permitissem ser enganados, a vida, comparada com
as coisas que conhecemos, seria como um conto de fadas ou
as histórias das Mil e Uma Noites.
Se respeitássemos apenas o que é inevitável e tem direito a
ser, a música e a poesia ressoariam pelas ruas fora.
Quando somos calmos e sábios, percebemos que só as coisas
grandes e dignas têm existência permanente e absoluta, que os
pequenos medos e os pequenos prazeres não passam de sombra
da realidade, o que é sempre estimulante e sublime.
Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem ser
enganados pelas aparências, os homens em toda a parte
estabelecem e confinam as suas vidas diárias de rotina
e hábito em cima de fundações puramente ilusórias.
 

 

   

O ciclo da vida
O homem domina a natureza e é por ela dominado. Só ele lhe
resiste e ao mesmo tempo ultrapassa as suas leis, amplia o seu
poderio graças à sua vontade e actividade. Afirmar no entanto
que o mundo foi criado para o homem é algo que está longe de
ser evidente. Tudo o que o homem constrói é, como ele,
efémero: o tempo derruba os edifícios, atulha os canais, apaga
o saber - e até o nome das nações. (...) Dir-me-ão que as novas
 gerações recebem a herança das gerações que as precederam
e que, por consequência, a perfeição ou o aperfeiçoamento
não têm limites. Mas o homem está longe de receber intacta a
súmula dos conhecimentos acumulados pelos séculos que o
precederam e se aperfeiçoa algumas dessas invenções no que
diz respeito a outras fica bastante atrás dos seus próprios
inventores; um grande número dessas invenções chega
mesmo a perder-se.

Não preciso sequer de sublinhar como certos pretensos
melhoramentos foram nocivos à moral e ao bem-estar.
Determinada invenção, suprimindo ou diminuindo o trabalho
e o esforço, enfraqueceu a dose de paciência necessária para
suportar as contrariedades - ou a energia que temos de dar
provas para as vencer. Outros progressos, dando origem a
um maior luxo e a um bem-estar aparente, exerceram uma
influência funesta sobre a saúde das gerações, sobre o seu
poder físico e acarretaram igualmente uma decadência moral.
O homem vai buscar à natureza venenos como o tabaco e o
ópio para deles fazer instrumentos de prazer grosseiros,
 sendo castigado com a perda da energia e o embrutecimento.
Nações inteiras vivem hoje como párias, devido ao uso
imoderado destes estimulantes ou dos licores fortes.
Atingindo um certo ponto de civilização, atenuam-se em
particular as noções de honra e de mérito. O enfraquecimento
geral, que é provavelmente o resultado do progresso dos
prazeres, arrasta uma rápida decadência, o esquecimento
do que fora a tradição conservadora - ou o ponto de honra
de uma nação. É numa situação como esta que se torna difícil
resistir aos invasores. Há sempre um povo qualquer - sedento
por seu turno de prazeres, pura e simplesmente bárbaro, ou
que conserva ainda qualquer mérito ou espírito de iniciativa -
disposto a aproveitar-se dos despojos dos povos degenerados.
Esta catástrofe, facilmente previsível, torna-se por vezes
uma espécie de rejuvenescimento para o povo conquistado.
É um pouco o que sucede com a tempestade que purifica o
ar depois de o ter convulsionado; esse turbilhão parece
trazer novos germes ao solo gasto e de tudo isto pode ser
que nasça uma nova civilização, Serão no entanto necessários
séculos para que floresçam de novo as doces artes, que
acabarão por abrandar os costumes e os corromper de novo,
ritmando essas ternas alternativas da grandeza e de miséria em
que transparece tanto a fraqueza humana como o poder
singular do seu génio.







   

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