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O amor e a amizade

     
O verdadeiro gesto de amor
Aquilo que de verdadeiramente significativo podemos
dar a alguém é o que nunca demos a outra pessoa, porque
nasceu e se inventou por obra do afecto.
O gesto mais amoroso deixa de o ser se, mesmo bem
sentido, representa a repetição de incontáveis gestos
anteriores numa situação semelhante.
O amor é a invenção de tudo, uma originalidade
inesgotável.
Fundamentalmente, uma inocência.


 

 

 

 

  

  

  

  

  

 

   
  Não se ama uma pedra
Amar é reconhecer nos outros um ser misterioso, e não um
objecto - tu eras uma vibração à tua volta, não a estreita
presença de um corpo. Aqueles que não amamos nem
odiamos são nítidos como uma pedra. Sentir neles uma
pessoa
é começar a amar ou a odiá-los. Só amamos ou
odiamos quem é vivo para nós.
(«Nunca amaste ninguém...»).
   
  Todos amam precisamente o que lhes falta
Todos amam precisamente o que lhes falta. A escolha
individual, que se funda nessas considerações
meramente relativas, é bem mais determinada, mais
decidida e mais exclusiva do que a escolha que se baseie
em considerações absolutas; é desses aspectos relativos
que vulgarmente nasce o amor de paixão, enquanto os
amores comuns e passageiros só são guiados por
considerações absolutas. Nem sempre é a beleza regular
e perfeita que dá origem às grandes paixões. Para uma
inclinação verdadeiramente apaixonada é necessária uma
condição que só nos é possível descrever através de uma
metáfora tirada à química. As duas pessoas devem
neutralizar-se uma à outra, tal como um ácido e uma base
 alcalina num sal neutro.
   
  Filosofia e amor são completamente antagónicos

Entre a filosofia e o amor não há possibilidade de
convivência. A filosofia exila a mulher e a mulher
exclui a filosofia. Os filósofos são todos cérebro sem
coração nem testículos. Aqueles que tiveram mulheres
e filhos são filósofos menores, em segunda mão. Os
maiores são todos misóginos.
A filosofia tem relação com a castidade: quem se
aproxima da mulher não pode alcançar o absoluto. 
Quem teve mulher, como Sócrates, considerou-a empecilho
 e tortura.

São antes sodomitas, ou onanistas  - em todos os casos,
antifemininos.
A mulher é a vida e a filosofia uma espécie de morte; a dona
é o primado do sentimento e a filosofia quer ser
racionalismo puro; a mulher é capricho e novidade e
a filosofia ordem e sistema.
No entanto, a filosofia não se pode vangloriar de vencer,
com a sua força, a tentação de Eros - é verdade, ao invés,
que a frigidez e a impotência predispõem para a filosofia.

Se virem um filósofo marido e pai feliz, desconfiem da sua
filosofia - pode ser, quando muito, professor ou
vulgarizador de metafísica, mas de modo algum um criador
de sistemas.
   
  Crescer ou decrescer
Tudo o que não cresce, decresce e arrisca-se a
desaparecer. Este parece ser um princípio básico da vida.
Não há meio termo, ninguém fica de fora desta realidade.
Se deixo de investir numa relação, ela não se aguenta;
se não dou continuidade à minha formação, deformo-me
inevitavelmente, e por aí fora... E quem não continua a
investir na fé e no amor, corre o risco de perder ambas as
coisas.
 
   
  Amor e amizade
Não podemos comparar à amizade a afeição que
sentimos para com as mulheres, conquanto ela
provenha da nossa escolha, nem tão-pouco podemos
pô-la na mesma categoria. O seu fogo, confesso-o,
é mais activo, abrasador e acerbo, mas é um fogo
intempestivo e volúvel, ondulante e diverso,
febril, com altos e baixos e que só se prende a
nós por um fio. Na amizade há um calor geral e
total, de resto, temperado e igual, um calor
constante e tranquilo, todo doçura e suavidade
e sem nada de áspero ou de pungente. E o que
mais é, no amor não há senão um desejo louco
furioso do que nos foge:

Tal como à lebre segue o caçador, / Por montes
e vales, ao frio e ao calor / E mal a vê presa
mais não lhe liga.

Logo que entra nos domínios da amizade, onde
as vontades vão ao encontro uma da outra, o
amor esvai-se e enlanguesce. A fruição perde-o,
uma vez que o seu objectivo é corporal e está
sujeito à saciedade. A amizade, ao invés, é fruída
à medida que é desejada, e só desponta, se
desenvolve e cresce na fruição, já que é espiritual,
e a alma se aperfeiçoa pela prática. Durante essa
perfeita amizade, tais afeições passageiras também
encontraram lugar para mim. Assim, os dois tipos de
afeição coexistiram em mim, cientes um do outro, mas
sem nunca se poderem equiparar: o primeiro,
mantendo a sua rota em voo altaneiro e majéstico,
e vendo com desdém o outro a fazer piruetas a um
nível muito inferior ao seu.
   
  Não pode existir amor sem verdadeira troca
Não te lembras de ter encontrado na vida aquela
que se considera um ídolo? Que havia ela de receber
do amor? Tudo, até a tua alegria de a encontrares, se
torna homenagem para ela. Mas, quanto mais a
homenagem custa, mais vale: ela saborearia melhor
o teu desespero.
Ela devora sem se alimentar. Ela apodera-se de ti
para te queimar à sua honra. Ela é semelhante a
um forno crematório. Ela, na sua avareza,
enriquece-se de várias capturas, julgando encontrar a
alegria nessa acumulação. E não acumula mais do que
cinzas. Porque o verdadeiro uso dos teus dons era
caminho de um para o outro, e não captura.
Ela verá penhores nos teus dons e abster-se-á de
tos conceder em paga. Na falta de arrebatamentos
que te satisfariam, a falsa reserva dela far-te-á ver que
a comunhão dispensa sinais. É marca da impotência
para amar, não elevação do amor. Se o escultor
despreza a argila, terá de modelar o vento. Se o teu
amor despreza os sinais do amor a pretexto de atingir a
essência, o teu amor não passa de um palavreado.
Não descuides as felicitações, nem os presentes,
nem os testemunhos. Serias capaz de amar a
propriedade, se fosses excluindo dela, um por um, como
supérfluos, porque particulares demais, o moinho, o
rebanho, a casa? Como construir o amor, que é rosto
lido através da urdidura, se não há urdidura sobre a
qual escrever?

Sem cerimonial de pedras, não haveira catedral.
Nem haverá amor sem cerimonial em vistas do amor.
Eu só atinjo a essência da árvore se ela modelou
lentamente a terra segundo o ceriomonial das raízes,
do tronco e dos ramos. Nessa altura, ela é una. Tal
árvore e não uma outra.
Mas aquela acolá desdenha as trocas, que a haviam
de fazer nascer. Ela procura no amor um objecto
capturável. E esse amor não tem significado algum.
Ela julga que o amor é presente que ela pode fechar
nela. Se tu a amas, é porque ela te conquistou. Ela
fecha-te nela, convencida de enriquecer. Ora o

amor não e tesouro a conquistar, mas obrigação
de parte a parte, fruto de um cerimonial aceite,
rosto dos caminhos da troca.
Jamais essa mulher nascerá. Só de uma rede de
laços se pode nascer. Ela continuará a ser
semente abortada, poder por empregar, alma e
coração secos. Ela há-de envelhecer funebremente,
entregue à vaidade das suas capturas.
Tu não podes atribuir nada a ti próprio. Não és
cofre nenhum. És o nó da diversidade.
O templo, também é sentido das pedras.
   
  Nunca nos separamos do primeiro amor
Já o disse em Hiroshima Mon Amour: o que
conta não é a manifestação do desejo, da
tentativa amorosa. O que conta é o inferno da
história única. Nada a substitui, nem uma segunda
história. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a
provocamos, mais ela foge. Amar é amar alguém.
Não há um múltiplo da vida que possa ser vivido.
Todas as primeiras histórias de amor se quebram
e depois é essa história que transportamos para as
outras histórias. Quando se viveu um amor com
alguém, fica-se marcado para sempre e depois

transporta-se essa história de pessoa a pessoa.
Nunca nos separamos dele.
Não podemos evitar a unicidade, a fidelidade,
como se fôssemos, só nós, o nosso próprio cosmo.
Amar toda a gente, como proclamam algumas
pessoas e os cristãos, é embuste. Essas coisas não
passam de mentiras. Só se ama uma pessoa de cada
vez. Nunca duas ao mesmo tempo.
 
   
  Não se reconquista o amor com argumentos
Não te esqueças de que a tua frase é um acto. Se
desejas levar-me a agir, não pegues em argumentos.
Julgas que me deixarei determinar por argumentos?
Não me seria difícil opor, aos teus, melhores argumentos.
Já viste a mulher repudiada reconquistar-te através de
um processo em que ela prova que tem razão? O processo
irrita. Ela nem sequer será capaz de te recuperar
mostrando-te tal como tu a amavas, porque essa já tu a
não amas. Olha aquela infeliz que, nas vésperas do divórcio,
teve a ideia de cantar a mesma canção triste que cantava
quando noiva. Essa canção triste ainda tornou o homem
mais furioso.
Talvez ela o recuperasse se o conseguisse despertar tal
como ele era quando a amava. Mas para isso precisaria
de um génio criador, porque teria de carregar o homem
de qualquer coisa, da mesma maneira que eu o carrego

de uma inclinação para o mar que fará dele construtor
de navios. Só assim cresceria essa árvore que depois se
iria diversificando. E ele havia de pedir de novo a canção
triste.
Para fundar o amor por mim, faço nascer em ti alguém
que é para mim. Não te confessarei o meu sofrimento,
porque ele te faria desgostar de mim. Não te farei
censuras: elas irritar-te-iam justamente. Não te direi as
razões que tu tens para amar-me, porque não as tens.
A razão de amar é o amor. Também não me mostrarei
mais, tal como tu me desejavas. Porque tu já não desejas
esse. Se não, amar-me-ias ainda. Mas educar-te-ei para
mim. E, se sou forte, mostrar-te-ei uma paisagem que
fará de ti meu amigo.

 
   
  Cerimonial do amor
Se não houver esperanças de que o teu amor seja
recebido, o que tens a fazer é não o declarar. Poderá
desenvolver-se em ti, num ambiente de silêncio.
Esse amor proporciona-te então uma direcção que
permite aproximares-te, afastares-te, entrares,
saíres, encontrares, perderes. Porque tu és aquele
que tem de viver. E não há vida se nenhum deus
te criou linhas de força.
Se o teu amor não é recebido, se ele se transforma
em súplica vã como recompensa da tua fidelidade,
se não tens coração para te calares, nessa altura vai
ter com um médico para ele te curar. É bom não
confundir o amor com a escravatura do coração.
O amor que pede é belo, mas aquele que suplica é
amor de criado.
Se o teu amor esbarra com o absoluto das coisas,
se por exemplo tem de franquear a impenetrável
parede de um mosteiro ou do exílio, agradece a
Deus que ela por hipótese retribua o teu amor,
embora na aparência se mostre surda e cega.
Há uma lamparina acesa para ti neste mundo.
Pouco me importa que tu não possas servir-te
dela. Aquele que morre no deserto tem a riqueza
de uma casa longínqua, embora morra.
Se eu construir almas grandes e escolher a mais
perfeita para a rodear de silêncio, ficarás com a
impressão de que ninguém recebe nada com isso.
E, no entanto, ela enobrece todo o meu império.
Quem quer que passa ao longe, prosterna-se. E
nascem os sinais e os milagres.
Não importa que o amor que alguém nutre por ti
seja um amor inútil. Desde que tu lhe correspondas,
caminharás na luz. Grande é a oração à qual só
responde o silêncio; basta que o deus exista.
Se o teu amor é aceite e há braços que se abrem para
ti, então pede a Deus que salve esse amor de
apodrecer. Eu temo pelos corações cumulados.
   
  O amor como graduação da nossa consciência
Ninguém sente em si o peso do amor que se inspira
e não comparte. Nas máximas aflições, nas derradeiras
do coração e da vida, é grato sentir-se amado quem já
não pode achar no amor diversão das penas, nem soldar
o último fio que se está partindo. Orgulho ou
insaciabilidade do coração humano, seja o que for, no
amor que nos dão é que nós graduamos o que valemos em
nossa consciência.

 
   
  Não confundir o amor com o delírio da posse
Não confundas o amor com o delírio da posse, que
acarreta os piores sofrimentos. Porque, contrariamente
à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de
propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz
sofrer. Por eu amar a Deus, meto-me a pé pela estrada fora,
coxeando penosamente para o levar aos outros homens.
E não reduzo o meu Deus à escravatura. E sou alimentado
com o que ele dá a outros. Eu sei assim reconhecer aquele
que ama verdadeiramente: é que ele não pode ser
prejudicado. O amor verdadeiro começa lá onde não se
espera mais nada em troca.
   
  A alma transforma-se em sensações
Eis um efeito que me será contestado, e que só apresento
 aos homens que, digamos, são bastante infelizes para terem
amado com paixão durante longos anos, dum amor
contrariado por obstáculos invencíveis:
A vista de tudo o que é extremamente belo, tanto na
natureza como nas artes, traz-nos a recordação do
que amamos, com a rapidez de um relâmpago.
É que, pelo processo do ramo de árvore guarnecido
de diamantes da mina de Salzburgo, tudo o que no
mundo é belo e sublime faz parte da beleza do que
amamos, e esta visão imprevista da felicidade
enche-nos os olhos de lágrimas num instante. É assim
que o amor do belo e o amor se dão vida um ao outro.
Uma das infelicidades da vida é que a ventura de ver
a quem amamos e de lhe falar não deixa recordações
distintas. Aparentemente, a alma está demasiado
perturbada pelas suas emoções para poder prestar
atenção ao que as causa ou as acompanha.
Transforma-se na própria sensação. É talvez porque
estes prazeres não se podem renovar sempre que
queremos, por simples força de vontade, que se
renovam com tanta força, desde que um objecto
qualquer nos venha tirar da meditação consagrada à
mulher que amamos, e lembrar-no-la mais vivamente
por meio de uma nova sugestão (o perfume dela,
por exemplo).

 
   
  A Fronteira entre a amizade e o amor
Há na pura amizade um prazer a que não podem atingir
 os que nasceram medíocres. A amizade pode subsistir
entre pessoas do mesmo sexo a diferentes, isenta mesmo
de toda a materialidade. Uma mulher, entretanto, olha
sempre um homem como um homem; e reciprocamente,
um homem olha uma mulher como uma mulher; essa
ligação não é paixão nem pura amizade: constitui uma
classe aparte.
O amor nasce bruscamente, sem outra reflexão, por
temperamento, ou por fraqueza: um detalhe de beleza nos
fixa, nos determina. A amizade, pelo contrário, forma-se
pouco a pouco, com o tempo, pela prática, por um longo
convívio. Quanta inteligência, bondade, dedicação,
serviços e obséquios, nos amigos, para fazer, em anos,
muito menos do que faz, às vezes, num minuto, um
rosto bonito e uma bela mão!
O tempo, que fortalece as amizades, enfraquece o amor.
Enquanto o amor dura, subsiste por si, e às vezes pelo que
parece dever extingui-lo: caprichos, rigores, ausência,
ciúme; a amizade, pelo contrário, precisa de alento: morre
por falta de cuidados, de confiança, de atenção. É mais
comum ver um amor extremo que uma amizade perfeita.
O amor e a amizade excluem-se um ao outro. Aquele que
teve a experiência de um grande amor descuida a amizade;
e quem se esgotou na amizade ainda não fez nada para o
 amor.
O amor começa pelo amor, e só se passaria da mais forte
amizade para um amor fraco. Nada se parece mais com uma
viva amizade do que essas ligações que o interesse do nosso
amor nos faz cultivar.
   
  Amar ou se amado
Que é o que mais deseja e mais estima o amor: ver-se
conhecido ou ver-se pago? É certo que o amor não pode
ser pago, sem ser primeiro conhecido; mas pode ser
conhecido,sem ser pago.
E considerando divididos estes dois termos, não
há dúvida que mais estima o amor e melhor lhe está ver-se
conhecido que pago. Porque o que o amor mais pretende, é
obrigar; o conhecimento obriga, a paga desempenha. Logo
muito melhor lhe está ao amor ver-se conhecido que pago;
porque o conhecimento aperta as obrigações, a paga e o
desempenho desata-as. O conhecimento é satisfação
do amor próprio; a paga é satisfação do amor alheio.
Na satisfação do que o amor recebe, pode ser o
afecto interessado; na satisfação do que comunica,
não pode ser senão liberal.
Logo, mais deve estimar o amor ter segura no
conhecimento a satisfação da sua liberalidade, que ver
duvidosa na paga a fidalguia do seu desinteresse.
O mais seguro crédito de quem ama, é a confissão
da dívida no amado; mas como há-de confessar a dívida,
quem a não conhece? Mais lhe importa logo ao amor
o conhecimento que a paga; porque a sua maior riqueza
é ter sempre endividando a quem ama.
Quando o amor deixa de ser credor, só então é pobre.
Finalmente, ser tão grande o amor que se não possa
pagar, é a maior glória de quem ama: se esta grandeza
se conhece, é glória manifesta; se não se conhece, fica
escurecida, e
não é glória.
Logo, muito mais estima o amor, e muito mais deseja
e muito mais lhe convém aglória de conhecido, que
 a satisfação
de pago.
 
   
  A verdadeira amizade
Na verdadeira amizade, em que sou experimentado,
dou-me mais ao meu amigo que o puxo para mim.
Não só prefiro fazer-lhe bem a que ele mo faça mas
ainda que ele o faça a si próprio a que mo faça;
faz-me ele, então, o maior bem possível quando a si
o faz. E se a sua ausência lhe for quer prazenteira
quer útil, torna-se-me ela bem mais agradável que a
sua presença; e de resto não é propriamente ausência
se há meios de comunicarmos um com o outro.
Tirei outrora partido e proveito do nosso
afastamento. Em nos separando, melhor e mais
amplamente entrávamos em posse da vida: ele
vivia, fruía e via para mim, e eu para ele, mais
plenamente que se ele estivesse presente.
Uma parte de cada um de nós permanecia desocupada
quando estávamos juntos: fundíamo-nos num só.
A separação espacial tornava mais rica a união das
nossas vontades. A insaciável fome da presença
física denuncia uma certa fraqueza na fruição
mútua das almas.

 
   
  A verdadeira amizade não se procura; exercita-se
É um erro desejar ser compreendido antes de se ser
elucidado por si mesmo a seus próprios olhos. É
procurar prazeres na amizade, e não méritos. É
qualquer coisa de mais corruptor ainda do que o
amor. Venderias a tua alma por amor.
Aprende a repelir a amizade, ou melhor, o sonho
da amizade. Desejar a amizade é um grande erro.
A amizade deve ser uma alegria gratuita como as
que a arte ou a vida oferecem. É preciso recusá-la
para se ser digno de a receber: ela é da categoria
da graça («Meu Deus, afastai-vos de mim...»). É
dessas coisas que são dadas por acréscimo. Toda a
ilusão de amizade merece ser destruída. Não é
por acaso que nunca foste amado... Desejar
escapar à solidão é uma cobardia. A amizade não
se procura, não se imagina, não se deseja;
exercita-se (é uma virtude). Abolir toda esta
margem de sentimento, impura e enevoada.
 
Ou melhor (pois não é necessário desbastar-se
a si mesmo rigorosamente), tudo o que, na
amizade, não passe por alterações efectivas deve
passar por pensamentos ponderados. É
absolutamente inútil privar-se da virtude
inspiradora da amizade. O que deve ser
severamente proibido, é sonhar com os prazeres
do sentimento. É corrupção. E é tão estúpido
como sonhar com a música ou com a pintura.
A amizade não se deixa afastar da realidade,
tal como o belo. E o milagre existe, simplesmente,
no facto de que ela existe. Aos vinte e cinco anos
é mais que tempo de acabar radicalmente com
a adolescência...
   
  A intimidade na amizade
Ele encontrou alguém com quem pode falar,
pensei. E eu também, pensei a seguir. No
momento em que um homem começa a falar
de sexo a outro, está a dizer alguma coisa acerca
de ambos. Noventa por cento das vezes isso
não acontece, e talvez seja melhor que não
aconteça, mas se não conseguirmos alcançar
um certo grau de franqueza no que respeita a sexo
e optamos por proceder como se nem sequer
pensássemos nisso, então a amizade masculina é
incompleta. A maioria dos homens nunca encontra
um amigo assim. Não é comum. Mas quando
acontece, quando dois homens se descobrem de
acordo sobre esta parte essencial de ser um homem,
sem medo de serem julgados, aviltados, invejados
ou dominados, seguros de que a sua confiança
não será traída, a sua relação humana pode
tornar-se muito forte e nascer uma
intimidade inesperada.
 
   
  A fronteira entre a amizade e o amor
Há na pura amizade um prazer a que não podem
atingir os que nasceram medíocres. A amizade
pode subsistir entre pessoas do mesmo sexo a
diferentes, isenta mesmo de toda a materialidade.
Uma mulher, entretanto, olha sempre um homem
como um homem; e reciprocamente, um homem
olha uma mulher como uma mulher; essa ligação
não é paixão nem pura amizade: constitui uma
classe aparte.
O amor nasce bruscamente, sem outra reflexão,
por temperamento, ou por fraqueza: um detalhe
de beleza nos fixa, nos determina. A amizade,
pelo contrário, forma-se pouco a pouco, com o
tempo, pela prática, por um longo convívio.
Quanta inteligência, bondade, dedicação, serviços
e obséquios, nos amigos, para fazer, em anos, muito
menos do que faz, às vezes, num minuto, um rosto
bonito e uma bela mão!
O tempo, que fortalece as amizades, enfraquece o
amor. Enquanto o amor dura, subsiste por si, e às
vezes pelo que parece dever extingui-lo: caprichos,
rigores, ausência, ciúme; a amizade, pelo contrário,
precisa de alento: morre por falta de cuidados, de
confiança, de atenção. É mais comum ver um amor
extremo que uma amizade perfeita.
O amor e a amizade excluem-se um ao outro.
Aquele que teve a experiência de um grande amor
descuida a amizade; e quem se esgotou na amizade
ainda não fez nada para o amor.
O amor começa pelo amor, e só se passaria da
mais forte amizade para um amor fraco. Nada se
parece mais com uma viva amizade do que essas
ligações que o interesse do nosso amor nos faz cultivar.
   
  Abrir o entendimento pela amizade
O fruto da amizade é saudável e excelente para o
entendimento, pois a amizade converte as tormentas
e as tempestades dos sentimentos em dia límpido, e
ilumina com luz solar as trevas e a confusão dos
pensamentos. Não se deve entender com isso apenas
os conselhos fiéis que se recebem de um amigo.
Antes deles, é fora de dúvida que quem tenha a mente
borbulhante de pensamentos logrará clarificar e
ordenar o entendimento comunicando as suas ideias
a outrem. Trará à tona mais facilmente os
pensamentos; ordená-los-á de maneira mais eficaz;
julgará como parecem quando convertidos em
palavras; em suma, far-se-à mais sábio do que é,
alcançando numa hora de palestra mais do que
num dia inteiro de meditação.
Disse bem Temístocles ao Rei da Pérsia, que o falar
é como pano de Arras, desenfardado e posto à venda:
nele, as imagens são exibidas, enquanto que, no
pensamento, permanecem enfardadas
. Este fruto da
amizade, o de abrir o entendimento, não se restringe
apenas aos amigos capazes de nos dar conselho
(estes são, na verdade, os melhores); mesmo sem isso,
aprendemos acerca de nós mesmos, trazemos os
nossos pensamentos à luz e afiamos a agudeza do
nosso engenho como se contra uma pedra de amolar,
que, ela própria, não corta. Dizendo-o numa palavra:
é preferível confessarmo-nos com uma estátua ou
uma figura de quadro do que deixar em branca
nuvem os nossos pensamentos.
 
     

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