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António da Mariete
 



Sou António da mariète

Quem não pode não promete

Gosto de fazer adivinhas

É o Nº 29 e a rua das laijinhas

 

Bom dia para toda a gente

A todos quero dizer

Deus deitou-me assim ao mundo

Heide ser até morrer

 

Só Deus me pode valer

A mim e aos anjos do céu

Esta é a verdade certa

Ninguém a mais sério do que eu

 

Tudo isto é a verdade

Digo a todos amigos meus

Quem me fizer mal a mim

É o mesmo que bater em Deus

 

Tenho uma coisa boa comigo

São estes os meus carinhos

Tenho muita fé em Deus

E adoro muito os santinhos

 

Tenho cinco filhinhos

Andão três no estrangeiro

Quatro já estão casados

Ainda tenho um solteiro

 

 Trabalhão mas ganham muito dinheiro

Tem muita fé em Nossa Senhora

Namora uma rapariga

Esta a ser professora

 

Quem entra na minha casa

Sabe bem que a vida esta dura

Mas quem me tiver inveja

Vale mais ficar na rua

 

Nesta casa é gente séria

Já todos me conhecem bem

Pode entrar quem quiser

Não faço mal a ninguém

 

Tudo podia correr bem

Já é falado dos tempos antigos

Mas ainda há algumas mulheres

Que elas fogem aos maridos

 

Eles ficam pensativos

Algumas vão para o estrangeiro

Cá ficam os desgraçados

Sem mulher e sem dinheiro

 

É como os rapazes de agora

Estão abussar de mais

Em Portugal ou no estrangeiro

Já fazem picardias iguais

 

Estão por todo o lado

Só pensão nas maroteiras

Alguns fogem com as casadas

E deixão ficar as solteiras

 

No tempo que eu me casei

Havia mais educação

Diante do pai e da mãe

Na filha ninguém podia por a mão

 

Eu não trato mal ninguém

São estes os meus resultados

Já os meus falecidos pais assim eram

Também muito educados

 

 É certo tenho cinco filhos

Todos gostam das minhas cantigas

Tenho dois rapazinhos

E três são raparigas

 

Esta é a verdade muito serta

Digo do meu coração

Eu trato muito bem a mãe deles

E louvam-me muito esta acção

 

Digo do meu coração

Seja o que Deus quiser

Enquanto eu for vivo

Não quero outra mulher

 

Eu penso bem na minha vida

A homens que são traiçoeiros

Casados com mulheres ainda novas

E são pior do que os solteiros

 

Pensai bem rapazinhos

Fazei bem não fazeis mal

Um dia que tenhais uma filha

Depois também vos podem fazer igual

 

 Não gosto de fazer mal

Só gosto de fazer bem

Já não há vergonha nenhuma

Tanto vai a filha como vai a mãe

 

Eu ainda me lembro bem

Nem havia de dizer isto

Já tenho 62 anos

E ainda toco bem nisto

 

A verdade é só uma

E podem acreditar

Deus deitou-me assim ao mundo

Pobre de quem me ade aturar

 

Vou fazer duas ou três quadras

Toda essa malta quer e precisa

Sou António Santos da Mariéte

O pai da vossa colega e amiga Luísa

 

 Já sabe bem como eu sou

Também gosto de risadas

Já saiem também ao pai

Fazemos rir as solteiras e as casadas

 

Digo muitas e acertadas

Pois eu já sou reformado

Para andar bem e contente

É rir e o cantar o fado

 

Com respeito ao passeio

Tudo deve correr bem de Deus quiser

Boa viajem para toda a gente

E para a Luísa filha da minha mulher

 

Já não tenho pai nem mãe

O que mais a gente precisa

Agora a minha companhia

É a mãe da minha querida Luísa

 

Venha lá o que vier

Já não quero mais bébés

Só quero dinheiro e saúde

E a mulher para aquecer os pés

 

Adeus Vila Da Ponte

Para casado e solteiro

Tendes lá uma grande fábrica

As Frutas Cruzeiro

 

Esse lugar é o primeiro

A todos vou desejar

Muitos anos de vida

Aí dentro a trabalhar

 

Eu gosto de os ir visitar

São esses os meus resultados

Porque a minha filha Luísa me disse

São todos muito educados

 
A todos quero dizer a verdade

O resultado para mim não nenhum

Mas cá fico sempre pensando

De receber uma prenda de algum

 

Eu abuso até de mais

O miolo é ser bem duro

A mulher já me avisou

Escreves tanto és um burro

 

Eu cá me fico sempre a lembrar

A este meu pensamento e leio

Mas o dinheiro é pouco

Não posso andar em passeio

 

Cá fico a rezar a minha oração

A cantar uma cantiga

Só quero depois ver

Quem me paga esta dor de barriga

 

Estou quase a terminar

Estes meus grandes carinhos

Sei que não ganho mais nada

Trazei-me muitos beijinhos

 

As mulheres já casadas já não há nada a fazer

Agora as solteiras ainda sim

Se não me derem nada

Deus queira que arranjem um rapaz ruim

 

 Não diguens mal de mim

Nem de vosso Jesus Cristo

Eu passei muito trabalho

Para escrever tudo isto

Do olho direito estou pisco

Faço muitas asneiras o que vale é o direito

Para ver as meninas solteiras

 

A minha mulher não gosta

Quando vai ao pé de mim ao meu lado

Mas eu vejo certas coizinhas

Eu até fico muito maguado

 

Todo homem que é casado

Só faz aquilo que deve

Vai abrir uma fechadura

Que toda a chave lá serve

 
Quando vierens do passeio

Talvez eu depois aí vá

Só para ver a lembrança que me trazeis de lá

 
Agora vou mudar para a minha religião

Muitos recebem Nosso Senhor

Já nem precisam de confiança

 

Aqui vou terminar

Que tudo vos corra bem

Esse lindo passeio

A todos á cidade de Santarém

 

Vou agora começar a falar

No Senhor Padre Jorge

Que vem tirar o afular

 

Boa tarde Senhor Padre

E para a sua companhia

Entre com muita saúde

E saia com muita alegria

 

Senhor abençoai esta casa

Que eu venho visitar

A primeira vês que eu aqui venho

Tirar o afular

 
Peço a Deus Nossa Senhora

Que me livre dos enganos

Que venham a minha casa

Que me veja cá muitos anos

 

Fiquei um bocado triste

Não posso dizer o contrário

O Senhor Padre não pode vir

Mas mandou uma missionário

 

Mas dei igual a minha esmolinha

A Cristo Nosso Senhor

Que me ajude  noite e dia

Para mim tem muito valor

 

A todos quero eu dizer

Nem toda a gente assim faz uma lista

Quando cá vinha o Senhor Padre Candido

Muita gente não ia à missa

 

Agora também eu gostava de saber

E muitos ainda mais

Têm todos os mesmos estudos

E não praticam iguais

 

Este mundo são dois dias

Já todos nós sabemos

Ou mais tarde ou mais cedo

Pagamos tudo o que devemos

 

Todos nós pedimos a deus

Que a morte venha atrasada

Mas quando chega a hora

O nosso pedido não vale nada

 

Seguimos todos a mesma jornada

Eu também cá não fico

É para todos igual

Seja pobre ou seja rico

 

Tudo isto eu acredito

Ainda volto a dizer

Eu já estive às portas da morte

E Deus não me deixou morrer

 

Nem toda a gente assim diz

Sempre tive muito jeitinho

Deus salvou-me do acidente em França

Por eu ser muito santinho

 

Alguma gente vai á missa

É só para ocupar o assento

A devoção não é nenhuma

É mais para passar melhor o tempo


Eu quando vou à igreja

Já tenho pedido a Deus

Para castigar os invejosos

E ajudar os meus amigos

 

Só me custa ir à missa

Porque eu sou infeliz

Já sabem que eu sou surdo

E não ouço o que o Senhor Padre diz

 

Alguns também lá vão à Igreja

É só para estarem a rir

Na vez de olharem para os Santos

Deitam o nariz no banco a dormir

 

Aqui vou terminar

É esta a minha cantiga

Quem ler tudo isto e me ajudar

Deus lhe dê muitos anos de vida

 

 

Tenho coisas de poeta

Falando mesmo assim

Na freguesia da Cunha

Há poucos igual a mim

 

Muitos olham para mim

Sou homem sério não minto

Tudo isto foi passado

Em 1995

 

Queridos filhos e genros

Eu vos quero dizer

Deus deitou-me assim ao mundo

E assim eide morrer

 

Coisas custam a querer

Gostei sempre das brincadeiras

Mesmo agora de casado

Ainda olho para as solteiras

 

Ó lindos tempos antigos

Ainda me estou a lembrar

Já lá vão tantos anos

Não tornam mais a voltar

 

Era tudo mais pobre

Mas havia tecedeiras

Teciam muito e fiavam

Á luz das lindas candeias

 

 Vou contar a minha vida

De quando era pastor

Andava a guardar o gadinho

Não sofria tanta dor

 

 Andava bem sossegado

Porque havia muitos pastores

Como era tudo pobre

Nem lembravam os amores

 

Já sofria muitas dores

Mas cantava o fadinho

Era o mais triste de todos

Ficava na serra sozinho

 

Por isso tinha alegria

Tudo vos quero dizer

O meu pai era viúvo

Tinha que fazer o comer

 

O remédio era sofrer

E tinha que aguentar

Esperar pelo meu pai

Que me levasse o jantar

 

Um dia de madrugada

Lembrei-me de dar um aí

E casar-me bem depressa

Para não aturar o meu pai

 

Era uma vida alegre

Havia mais companhia

Para ganhar um escudo

Trabalhava todo o dia

 

Enquanto fui pastor

Era vida de lambar

Depois trabalhei no campo

Matei mais o coirão

 

Este tempo já lá vai

Ganhava uma migalha

Havia pouco dinheiro

Mas havia muita canalha

 

Adeus tempos antigos

Não me podem esquecer

Cá os tenho na lembrança

Enquanto eu não morrer

 

 Santo Estevão se fala-se

Ouvia lá o meu pai

Trabalhos que passei na serra

Para aturar o meu pai

 

Ó minhas terras do val

Onde havia tanta fonte

Tantas vezes lá atravessei

Para ir à tapada do monte

 

Tudo isto foi passado

Meu pai andava a lavrar

Arrebentou o arado

Virou-se para mim a berrar

 

Eram tempos miseráveis

Todos sabiam bem

Meu pai ficou mais ruim

Depois que faltou minha mãe

 

Eu fui o mais miserável

De todos os meus manos

Quando minha mãe morreu

Tinha eu 17 anos

 

Era um mouro a trabalhar

Naquelas terras do val

Não havia malhadeira

Malhava-se tudo ao mongual

 

Os animais coitadinhos

Cheios de fome e dores

Lavravam as terras todas

Porque não havia tractores

 

Havia mais gente

Faziam brincadeiras

Ceifava-se tudo á seitoira

Não havia segadeiras

 

Nem havia de escrever mais

Antes que o mal acontece-se

De tanta coisa pensar

Até de doi a cabeça

 

Por isso vou terminar

Gosto muito do fadinho

Até de noite na cama

Me ponho a cantar sozinho

 

Só peço a Deus saúde

E também muita alegria

Para todos os meus amigos

E para a minha companhia

 

13 de Maio sentença a dois

da minha casa saí

para ir assentar praça

E o meu caminho segui

 

Adeus aldeia das Arnas

Cá me estou sempre a lembrar

A uma terra bonita

Onde eu me fui casar

 

É raro acontecer

Isto que eu vou contar

Só namorei meio ano

Tratei logo em me casar

 

Quando falei à filha

O pai dela estava a ver

Ficou todo contente

Deu-me logo de beber

 

Meus sogros coitadinhos

Já não tinham pai nem mãe

Tive muita pena deles

Tratavam –me muito bem

 

Minha sogra também tinha

Um grande tear

Era grande tecedeira

E sabia trabalhar

 

Passava a vida a cantar

Gostava da brincadeira

Porque ela antigamente

Também era tabarneira

 

 Vou contar a ida a França

Lembrei-me mesmo agora

Os trabalhos que passei

Ir de salto pela serra fora

 

Mas tive a pouca sorte

Logo assim de repente

Só trabalhei 3 meses

Tive logo o acidente

 

Foi coisa tão de repente

Minha mulher coitadinha

Quando ouviu esto noticia

Pensou de ficar sozinha

 

Adeus tempos antigos

Não me podem esquecer

Cá tenho na lembrança

Enquanto não morrer

 

Fartei-me de sofrer

O coração tanto saltou

Pedi a Deus e Nossa Senhora

E tudo me perdoou

 

Foi por isso meus amigos

Ninguém se pode gabar

Muitos saiem de casa

Não tronam mais a voltar

 

Tudo isto nós sabemos

A vida amargurada

Vamos atrás da riqueza

E podemos ficar sem nada

 
A quem goste de me ouvir

Todos os amigos meus

Quem faz mal a mim

É o mesmo que bata a Deus

 

Vou ter uma lembrança

Lembro-me nestes instantes

Muitos anos de vida

A todos nossos emigrantes

 

A Vila de Sernancelhe

Não me pode esquecer

Foi sempre o meu concelho

E hade ser até morrer

 

A Câmara de Sernancelhe

Falando mesmo assim

Entrou o SR. José Mário

Agora parece um jardim

 

Digo mesmo assim

Para toda a gente ler

O SR. José Mário

Sabe o que anda a fazer

 

Tudo isto que eu digo

É para ler toda a gente

Estava tudo atrasado

Agora foi tudo para a frente

 

Tudo isto que eu digo

Não devem levar a mal

Preciso de um caminho feito

Para ir bem ao Barrocal

 
Podem-me atender de vontade

Como toda a gente vê

Porque só da minha casa

Foram dez do PSD

 

Tudo isto que se vê

O trabalho está à vista

Se não obedecerem

Vou deitar no comunista

 

Até me custa muito

Isto não é só para um

Já fizeram tantos trabalhos

E a mim ainda nenhum

 
Senhor Dr. José Mário

É homem de opinião

Obedece a todos os pedidos

Que lhe faz o meu irmão

 

Podem-lhe agradecer

Todos estes trabalhinhos

Porque se não fosse o carteiro

Não havia estes caminhos

 

Por isso vou terminar

Fica bem esta cantiga

Para Camara e freguesia

Muitos anos que tenham de vida

 

Já estou de 57 anos

Mas ainda sei trabalhar

Arranjei cinco filhos

Mas só um tenho para casar

 

 Ainda me não esqueci

Cá tenho no pensamento

A minha pouca sorte

No dia do casamento

 

O meu sogro coitadinho

De manhã se levantou

A procurar a sua filha

Que tal a noite passou

 

Ela pouco lhe falou

Estava muito desanimada

Agora quem manda sou eu

Você já não manda nada

 

Agora já esta casada

Já não tem nada a ver

Quem manda nela sou eu

Ou viver ou morrer

 

 Agora já tudo mudou

Para a família toda

Antigamente com 50$00

Dava para irmos a uma boda

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi dia de muita alegria

Nestas coisas eu não minto

O dia da nossa boda

Feito em 06/06/1965

 

Pensei de estar mais alegre

Mesmo nesse dia

A noiva adoeceu

Teve uma pneumonia

 

Minha sogra coitadinha

Muito olhava pela janela

Ver a filha tão doente

E eu ir dormir com ela

 

Mas tudo correu bem

Eu lá com o meu jeitinho

Mesmo doente que estava

Lá arranjei um menino

 

Não me dava para rir

Sofria do coração

Eu ia cheio de medo

A fazer a operação

 

Tinha muita devoção

Nos amigos e filhos

Porque nunca gostei

De os ver andar em sarilhos

 

La dentro do hospital

Fui sempre bem educado

Só me custava muito

La estar sempre fechado

 

De tanto estar deitado

Com os meus pés cruzados

De lá ver tantos doentes

Já todos burriscados

 

Os tempos mudaram bem

Assim como as cantigas

Eram mais os rapazes

Do que eram as raparigas

 

Estes rapazes de agora

Só pensam nas maruteiras

Olham mais para casadas

E menos para solteiras

 

António da Mariète

Sou um verdadeiro

Entrei para o hospital

Dia vinte de janeiro

 

Chegou-me a ocasião

O remédio foi sair

Com a dor de barriga

Já nem podia dormir

 

Muitos já nem são curados

Eu nem os podia ver

Começavam a bater as palmas

O remédio era morrer

 

Eu vos queria dizer

E podeis acreditar

quem vai para se curar

o meio é aguentar

 

E podeis acreditar

Eu nunca fui cruel

Quando o mal é de morte

O meio é dar a pele

 

Eu sou muito fiel

E também sou verdadeiro

Ainda me lembram coisas

Que fazia de solteiro

 

Ganhava pouco dinheiro

Mas lá andava todo o dia

À noite ia ver a menina

Era a minha alegria

 

A esta a minha cantiga

Quem não pode não promete

Só levei uma à igreja

Mas falei a seis ou sete

 

Estes rapazes de agora

Já ganham muita massa

As raparigas são tantas

Onde já comem de graça

 

 Eu ocupo a minha praça

Digo só uma vez

As raparigas de agora

Já se casam sem os três

 

A mulher nada me diz

Por eu ser traiçoeiro

Depois fui operado

Em 31 de Janeiro

 

Por Deus fui ajudado

Que tudo me coresse bem

Só me lembrei muito

Da minha falecida mãe

 

 Eu gosto de fazer bem

Digo do meu coração

Eu todos dias rezava

A minha oração

 

Chegada a ocasião

Como era traiçoeiro

Mas fui logo avisado

Pelo Senhor Enfermeiro

 

Dia 8 de Fevereiro

Meu coração tanto salta

Ouvi chamar pelo meu nome

Vai-te embora já tens alta

 

Gostava daquela malta

E que ricas enfermeiras

A maior parte delas

Ainda estavam solteiras

 

 Tinha grandes doideiras

Eu sofria da cabeça

Mas tinha que ter juízo

Antes que o mal aconteça

 

Não é coisa que mereça

Mas é só o que Deus quer

É triste um homem casado

Ir dormir sem a mulher

 

Sou pau para toda a colher

E gosto da brincadeira

Se não fosse por vergonha

Metia-me com uma enfermeira

 

Era uma doideira

Apertavam-me as canelas

Até me iam os olhos

De tanto olhar para elas

 

Ó minhas ricas donzelas

Já tanto me conheceis

Enquanto eu for vivo

Já não me esqueceis

 

Andavam às cinco e seis

E todas devagarinho

E eu mais adoecia

Ver-me na cama sozinho

 

Coitado do doentinho

Que vem para se curar

Tanto pensam na família

Mas tenho que aguentar

 

Quando me ia deitar

Era com pouca alegria

Ver-me sozinho na cama

E com tanta companhia

 

De manhã ao ser de dia

Tanta coisa eu pensava

Eu só pedia a Deus

Para ver se me aguentava

 

Telefonei à mulher

Ela falou-me a chorar

Tens de ter paciência

Nada te posso mandar

 

 Eu fiquei a saluçar

E muito a tremer

E ela que eu mais adoro

Quando a tornarei a ver

 
Ainda torno a responder

Nem a vida diz nada

Porque um homem casado

Tem aquela hora marcada

 

Tantas lágrimas deitava

Naquele lindo colchão

Até a alma me tremia

Quando me davam a injecção

 

O meu rico coração

Em tudo te acreditas

Eu nunca pensei

Em ver moças tão bonitas

 

Umas eram delgaditas

Mas tinham olhos leais

Depois andavam outras

Que eram grosas demais

 
Por não serem iguais

Mas tinham bom rostinho

O meu consolo todo

Era poder dar um beijinho

 

Já tenho 57 anos

Ainda bate bem o peito

Se algumas me deixassem

Eu sabia dar o jeito

 

 A todas guardei respeito

Aquelas lindas donzelas

Até me doem os olhos

De tanto olhar para elas

 
Coisa linda como aquelas

Jogava eu ao panalto

Só me deve aparecer

Lisboa no bairro alto

 

Sabem que eu não sou falso

Gosto muito do fado

Como haja dinheiro

Mulheres há em qualquer lado

 

Minhas lindas enfermeiras

Cá vos levo na lembrança

Eu vou chorar por vós

Como chora uma criança

 

Muita sorte para todos

Vos quero dizer

Não tardará muitos anos

Eu cá torno a vir bater

 

Senhor Dr. José Mário

Senhor Vitor acompanhar

Muitos anos de vida

Eu que venha visitar

 

Escriturários da Camara

Falando mesmo assim

Muita saúde e alegria

Nunca se esqueçam de mim

 

Toda a gente pode ler

Não desejo mal a ninguém

Seja homem ou mulher

Todos temem pai e mãe

 

Toda a gente pensa bem

O mal ninguém o quer

É triste um homem casado

Dormir sem a mulher

 

Aqui vou terminar

Já estou farto de escrever

Como não posso trabalhar

Isto foi para me entreter

 

Sou António da Mariète

Gosto de fazer adivinhas

Tenho o número 29

E a rua das laiginhas

 

 Já estou a ficar cansado

Fico aqui se Deus quiser

Na companhia dos meus filhos

E da minha querida mulher

 

Fui à Senhora da Cabeça

Fiquei muito contente

Esteve um dia de sol

Havia lá muita gente

 

Senhor Dr. António Canotilho

Foi sempre meu amigo

Se não fosse você

Muita gente já tinha morrido

 

 Como você não há ninguém

No Concelho de Sernancelhe

O Senhor Dr. É o Nº 1

 

Tenho na minha lembrança

Muito que se diga

Deus lhe dê muita saúde

E muitos anos de vida

 

Cá tenho na minha ideia

Esta minha pouca sorte

O Senhor cura todos os males

Só não pode curar a morte

 

 

 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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